acrobata maluco
aqui eu pesei o clima.
eu lembro com muita clareza dos poucos dias em que senti meu corpo tremendo. de medo, pelo menos. um tremelique diferente de tudo o que eu já tinha sentido, que das outras vezes eram sensações muito conhecidas e já bem nomeadas, tipo frio, esforço, ansiedade ou tesão. das poucas vezes que meu corpo tremeu de medo, parte do pavor era justamente não entender o que estava acontecendo — um dos privilégios de quem tudo garantido, esse, o de estranhar.
e não é como se a gente não se entendesse bem, eu e meu corpo; muito pelo contrário: faz tempo que essa linguagem é afinada o suficiente pra que eu saiba que se começa ali, num formigamento, num desconforto que a princípio não tem causa, num remelexo interno, é porque tem coisa. conversa essa polida na base do trauma, devo dizer, mas que hoje é parte do meu compasso. talvez por isso essa coisa tão maluca que é meu corpo tremendo: um aviso nítido de que tem algo errado, mas um sinal desconhecido, que pede uma ação imediata que eu não faço a mais puta ideia de qual seja. urgência em sair correndo, deitar em posição fetal, gritar e se esconder, tudo ao mesmo tempo. e tudo isso com o corpo inteiro tremendo.
[acho que aqui eu tenho que falar que esse texto tem várias menções sobre temas bem sensíveis, inclusive suicídio, tá?]
tem um exercício-movimento-postura-acrobacia do crossfit — já comentei sobre esse meu traço tóxico de personalidade? — com um nome bobo em inglês cujo objetivo é se trepar na barra usando o impulso do balanço do corpo, tal qual aqueles bonequinhos trapezistas de madeira, sabe qual? mané gostoso, chama, embora eu quisesse muito usar mamulengo pra trazer uma bossa bem raíz pra esse texto tão sudestino (ler com sotaque). eis que com a ajuda de um homem de 2 metros de altura e que aguenta coisa de 200 kg na força de sua bela raba, lá fui eu obrigada incentivada a tentar fazer o tal movimento, quando percebi que antes de qualquer esforço real do meu corpinho, comecei a me tremer inteira. não preciso dizer que não só não consegui fazer, como precisei de mais uns 40 minutos e uns 20 burpees para parar de tremer de medo e começar a tremer de cansaço.
parando pra pensar, eu sou bem medrosa. faltaria espaço pra listar que tenho pavor de altura, fobia de aranha, um tanto de medo de escuro, de ficar sozinha eu moro sozinha, de pássaros em geral (!), do mar, da revista do aeroporto, que comecei a ficar apavorada com tempestades depois que me mudei pro 22º andar, que não assisto filmes de terror nem amarrada, especialmente os sobrenaturais. em todas essas situações, é importante ressaltar, meu corpo não se treme inteiro. é um medo diferente, medo do que pode vir a acontecer — uma aranha cabeluda pular em cima de mim enquanto um demônio feioso aparece no reflexo do espelho enquanto eu escovo os dentes na beirada de um precipício durante uma tempestade, imagina! —, e não uma reação física incontrolável diante do que já foi.
quando eu recebi a ligação que o guilherme tinha morrido, desliguei falando “então tá, beijo!", e sentei na beirada da cama (com os pés firmes no chão). foi só depois de muito tempo que meu corpo inteiro começou a tremer. eu estaria mentindo se dissesse que lembro o momento exato, poderia até tentar romantizar: quando eu terminei de refazer na minha cabeça a cena que me descreveram no telefone, quando eu rasguei com raiva o pôster do bon jovi colado no armário, a gente tinha se prometido de ir junto; quando eu percebi que tinha deixado o secador de cabelo ligado esse tempo todo e provavelmente acordado meu irmão; quando eu tive que interromper a viagem dos meus pais com a notícia que meu amigo do colégio tinha caído de um prédio. mas eu tenho certeza que fiz tudo isso sem tremer feito vara verde, e uma lembrança meio borrada de ir buscar a primeira pizza que pedi sozinha na vida com os braços descontrolados. nessa época não tinha ifood, eu paguei com dinheiro que me deixaram na gaveta.
quando aquele abjeto deu a declaração que preferia ter filho morto do que filho gay, e eu ouvi de volta quando implorei por um pouco de empatia que “quem não deve, não teme". depois, quando tivemos certeza do que iríamos enfrentar dali pra frente, eu só chorei sem tremer mais, mas meu corpo tremeu inteiro algumas vezes por alguns anos: quando eu li nossos nomes numa suposta lista rodando por aí; quando meu companheiro saiu de casa pra ir ao mercado e eu vi o número de mortos numa notícia do uol; quando eu caí na fake news que os gatos poderiam morrer daquilo também; quando a minha mãe me ligou dizendo que ia entrar na UTI.

semana passada perdi um amigo pra uma daquelas doenças e meu corpo inteiro tremeu por dois dias inteiros, o que de todas as coisas me parece a maior bobagem, já que não tem nada mais que se possa fazer. correr, gritar, deitar, chorar, nada resolve a morte, né, no final das contas, e ninguém sabe o que fazer. não faz o menor sentido sentir medo de uma coisa que já aconteceu, veja só, como se aquela notícia estivesse antecipando alguma coisa ruim que ainda estaria por vir. não: morreu, pronto, se está morto, não tem como se ter medo da morte se ela já veio, o que me faz pensar que a gente fica com medo do que vem depois. ou talvez o corpo inteiro não trema de medo, mas de dor?
ou como diz a minha analista — que claro, não diz nada, mas que é mais legal achar que sim — talvez seja medo da possibilidade de eu mesma morrer, o que vem acompanhado da constatação bonita de que eu gosto bastante de viver. e mais, que agora talvez eu esteja finalmente confortável com a ideia de ter a vida do tamanho que ela é. imagina só, chegar até aqui e começar a perder as coisas? que deselegante.
o que, se a gente for olhar no detalhe, é a verdade, né. a gente que veio mais ou menos do mesmo lugar e que tem mais ou menos a mesma história acaba chegando nesse ponto da vida mais ou menos com essa sensação devastadora de que a vida é só isso aqui mesmo — o truque, tenho cada vez mais certeza, é ficar alegre com essa constatação. daí que a gente chega aqui e, de repente, começa a perder as coisas (e por coisas eu quero dizer pessoas e gatos mas estou me cagando de medo de escrever isso em voz alta). do mais absoluto nada, você está tendo conversas sobre as doenças dos seus amigos, os cuidados paliativos dos seus bichos e começa acompanhar as mãos dos seus pais ficarem irremediavelmente velhas. tudo isso no melhor momento da sua vida. réeeeeee gata.
[…] a certeza absoluta, imperativa, de que eu vou ser uma velha incrível: dona de mim, confortável em quem eu sou, repleta das minhas coisas, pessoas, recheada de vida — e gostosa, claro. trabalho pra isso porque me preparo todo dia pra quando essa vida chegar, aí, puts, eu vou ser radiante, plena, completa. reserva de músculos, de dinheiro, de vivacidade, de imaginação, até, de desejos, eu me preparo, e me preparo bem demais pra quando essa vida chegar. e só me preparo. mas esse é outro texto.
(ainda não é a hora desse texto, aliás).
— citando eu mesma, que cafona.
mas aí que de repente me deparei com a porrada de constatação que eu nunca acompanhei ninguém envelhecendo, assim no gerúndio. da mesma maneira que eu nunca passei por isso de envelhecer antes (a gente tá envelhecendo desde que nasceu, tá, eu sei, mas você entendeu). talvez esse seja o truque. os rombos que as perdas que já tive até aqui deixaram foram ou naturais, das minhas pessoas que sempre tinham sido velhas, ou tão absurdas que se enquadraram numa categoria completamente diferente.
eu ainda não sei o que fazer quando meu corpo inteiro treme assim e tenho uma razoável certeza de que não vou dar conta nunca mesmo de trepar na barra do jeito que berram insistem que sim. na real eu tou bem em paz com isso, pertinho do chão, levantando meus pesos cada vez maiores e tentando melhorar um pouquinho esse cárdio horroroso de quem até outro dia não tinha se tocado da importância de um pulmão forte. já superei o medo de pular na caixa, por exemplo: outro dia até consegui virar a bicha pra posição mais alta, tipo saltar por cima de um fusca, na minha escala. quando foi pra comemorar um pouco o alívio de termos sobrevivido à tanta coisa, esse mesmo corpinho, ansiosíssimo por uma festa, disse apenas não vai não: pressão baixa, vontade de fazer cocô, crise de ansiedade, depressão. pelo menos as costas destravaram um pouco, embora todas as noites eu ainda aperte os dentes com tanta força que eles rangem.
➝ como tudo na internet toma proporções absurdas: eu estou bem, minha família está bem, meus amigos estão bem — até os que não estão mais aqui — meus bichos estão ótimos. é só um texto, tá? e obrigada pela preocupação ♡
➝ esse texto foi sem muita revisão, desculpa qualquer coisa, viu.
➝ mesmo tudo estando bem, acho que todo mundo deveria ler o sinal amarelo, do júnior bueno.



Me vi na sua lista de medos, Isadora. Especialmente no medo de escrever (ou falar em voz alta) as coisas ruins que poderiam acontecer 😬🙏 Aprender a seguir em frente com medo mesmo é uma das coisas mais difíceis que tenho feito.
É como se o corpo virasse narrador junto da mente, tremendo para lembrar que estar viva dói, mas também é a prova mais bonita de que a vida ainda pulsa.